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A que era surda

Era uma vez um homem rico, casado com uma jovem surda como uma porta. Certa manhã, enquanto tomavam o pequeno almoço, ela disse-lhe:
— Estive ontem no mercado e havia lá vestidos de Damasco, xailes da Índia, colares da Pérsia e braceletes do Iémen. Parece que as caravanas acabam de trazer tudo isso para a nossa cidade. Agora olha bem para mim. Estou vestida de farrapos, embora seja esposa de um homem rico. Gostaria de possuir algumas dessas coisas tão belas.

O marido, ocupado ainda com o café do pequeno almoço, respondeu:
— Minha querida, não há razão para não ires ao mercado comprar tudo aquilo que te pedir o coração.

A mulher surda insistiu:
— Não! Sempre dizes “não, não”. Será necessário apresentar-me andrajosa diante dos nossos amigos, para vergonha da tua fortuna e da minha família?

— Não te disse não — respondeu o marido. Podes à vontade ir ao mercado e comprar os atavios e as mais belas jóias que tenham chegado à nossa cidade.

Mas a esposa tornou a interpretar as suas palavras e respondeu:
— És o rico mais miserável de todos. Negas-me tudo o que é belo e agradável, enquanto as outras mulheres da minha idade passeiam pelos jardins da cidade, enfeitadas com as mais ricas prendas.

E começou a chorar. Enquanto as lágrimas lhe caiam sobre o peito, gritou de novo:
— Andas sempre a dizer que, meia volta, quero um vestido ou uma joia!

Então o marido comoveu-se e, levantando-se, tirou da bolsa um punhado de oiro e pôs-lho diante, dizendo com voz bondosa:
— Vai ao mercado, minha querida, e compra tudo o que quiseres.

Desde esse dia, cada vez que a jovem surda desejava alguma coisa, ia à presença do marido com pérolas de lágrimas nos olhos. Ele, em silêncio, tirava um punhado de oiro e atirava-lho ao regaço.

Mas aconteceu apaixonar-se a jovem por um rapaz que tinha por costume fazer longas viagens. E, quando ele estava fora, ela sentava-se diante da janela, a chorar.

Quando a encontrava assim chorando, o marido dizia consigo mesmo:
— Deve ter chegado uma nova caravana e haverá prendas de seda e joias exóticas no mercado. E, tirando outro punhado de oiro, punha-o diante dela.

Khalil Gibran in “O Profeta”